Globalização
O processo de integração mundial que se intensifica nas últimas décadas baseia-se na liberalização econômica. Com o abandono gradativo de barreiras tarifárias que protegem sua produção da concorrência estrangeira, os Estados se abrem ao fluxo internacional de bens, serviços e capitais. A recente revolução nas tecnologias da informação contribui de forma decisiva para essa abertura, permitindo uma integração sem precedentes do planeta. Além de concorrer para uma crescente homogeneização cultural, a evolução e a popularização das tecnologias de informação (computador, telefone e televisor) são fundamentais para agilizar o comércio, o fluxo de investimentos e a atuação das empresas transnacionais. Em 1960, um cabo de telefone intercontinental conseguia transmitir 138 conversas ao mesmo tempo. Atualmente, os cabos de fibra ótica possuem capacidade para enviar 1,5 milhão. Uma ligação telefônica internacional de três minutos, que custava 244 dólares em 1930, é feita, em média, por 2,5 dólares em 2000. A Organização Mundial do Comércio (OMC) estima em 2000 a existência de 300 milhões de usuários da internet e transações comerciais de mais de 300 bilhões de dólares.
Expansão - O início da integração mundial remonta aos séculos XV e XVI, quando a expansão ultramarina dos Estados europeus possibilita a conquista de novos mercados. Outro salto na difusão do comércio e dos investimentos é dado pelas duas Revoluções Industriais, nos séculos XVIII e XIX. A interdependência econômica cresce até a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e é retomada no bloco capitalista após a II Guerra Mundial. Estimuladas pela queda de barreiras - decorrente, em grande parte, das políticas liberalizantes postas em prática pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt) e, atualmente, pela Organização Mundial do Comércio (OMC) -, as trocas mundiais aumentam de forma expressiva a partir dessa época. Em 1950 totalizam 61 bilhões de dólares, ao passo que em 1998 atingem 5,2 trilhões de dólares. O fim da Guerra Fria, nos anos 80, inaugura um novo estágio da globalização: as trocas mundiais incrementam-se ainda mais por causa da transição das nações comunistas para a economia de mercado, e a expansão do comércio supera a do aumento da produção mundial.
Um fator decisivo para a intensificação do comércio é a criação de Blocos econômicos regionais, nos quais as tarifas de importação e outras barreiras para as trocas entre os membros são eliminadas. O mais importante deles, a União Européia (UE), avança no processo de globalização ao criar, em 1o de janeiro de 1999, o euro, moeda única já adotada por 11 nações do bloco. A partir de 1o de julho de 2002, as moedas nacionais da UE deixarão de existir.
Corporações transnacionais - A globalização é marcada, ainda, pelo crescimento das corporações transnacionais, que exercem papel decisivo na economia mundial. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, das 100 maiores riquezas do mundo, metade pertence a Estados e metade, a megaempresas. Balanço da revista Fortune mostra que as dez principais corporações do mundo ganharam, juntas, mais de 1,3 trilhão de dólares em 1998, valor 60% maior que o PIB brasileiro. O faturamento isolado de cada uma dessas empresas é comparável ao PIB de importantes economias mundiais, como Dinamarca (174,87 bilhões de dólares), Noruega (145,89 bilhões) e Portugal (106.69 bilhões). A líder do ranking, a General Motors, anunciou, em Agosto de 2000, que teve um lucro recorde de 1,75 bilhão de dólares no segundo trimestre do ano. Além de crescer em faturamento, as corporações tornam-se gigantescas também pelo processo de fusões, acelerado a partir de 1998.
As transnacionais implementam mudanças significativas no processo de produção. Auxiliadas pelas facilidades na comunicação e nos transportes, instalam suas fábricas em qualquer lugar do mundo onde existam melhores vantagens fiscais e mão-de-obra e matéria-prima baratas. Os produtos não têm mais nacionalidade definida. Um carro de uma marca dos EUA pode conter peças fabricadas no Japão, ter sido projetado na França, montado no Brasil e ser vendido no mundo todo.
Explosão dos investimentos - A expansão dos fluxos de capital tem sido ainda maior por causa da abertura dos países ao investimento estrangeiro e da enorme Velocidade das transações. A migração quase instantânea do dinheiro fortalece investimentos estrangeiros de curto prazo. Mas, ao menor sinal de instabilidade econômica ou política no Estado, o investimento é resgatado, provocando uma crise que pode alastrar-se para outras nações por causa da integração das economias. É o que ocorre no segundo semestre de 1997, quando as principais bolsas de valores do mundo despencam em reação à profunda crise das nações do Sudeste Asiático.
Correção de rumos - Entre as críticas que recebe o modelo de desenvolvimento baseado na integração econômica mundial, há a de que ele não favorece a distribuição da riqueza entre as nações. Enquanto os países desenvolvidos respondem por quase 70% do comércio internacional, as economias mais frágeis mantêm-se excluídas desse processo. O debate sobre as conseqüências da abertura comercial para esses países está presente nos encontros promovidos durante o ano por importantes organismos internacionais. Na 10a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), em fevereiro de 2000, em Bangcoc (Tailândia), a grande maioria dos participantes destaca que a liberalização comercial nem sempre beneficia as nações em desenvolvimento. A Unctad defende a cooperação internacional em favor dos países mais pobres, seja na forma de assistência financeira, seja por meio do aumento de investimentos diretos. A organização, em conjunto com o Bird, tem um plano para abolir em 15 anos as dívidas externas dos 41 países mais pobres.
Em 1999, o Bird aponta como causas para o aprofundamento das desigualdades entre ricos e pobres o aumento das ações protecionistas dos países ricos, a voracidade dos investidores e a fragilidade econômica e institucional das nações subdesenvolvidas. Em junho de 2000, o banco divulga um relatório em que se conclui que as instituições precisam atuar mais em conjunto com as comunidades para que a população obtenha os benefícios do desenvolvimento. O Bird também se reúne com ONGs para ouvir suas propostas. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) sugere medidas para corrigir os rumos da globalização, como o aumento da participação e da influência das nações emergentes e ONGs nos fóruns econômicos internacionais - (FMI), Bird, Grupo dos Sete (G-7) -, controlados pelos Estados ricos.
Protestos antiglobalização - O debate em torno dos efeitos negativos da globalização ganha maior destaque durante a conferência mundial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle, em novembro de 1999. O encontro, no qual se pretendia lançar a Rodada do Milênio - um novo cronograma para a redução de tarifas comerciais -, tornou-se um espelho dos principais conflitos gerados pela globalização. Países ricos e pobres divergem sobre metas e prioridades, e as nações desenvolvidas mostram resistência a reduzir subsídios agrícolas. Do lado de fora, cerca de 10 mil representantes de sindicatos e organizações não governamentais (ONGs) contrárias à globalização realizam protestos contra a OMC. A partir de então, manifestações dessa natureza acompanham outros encontros promovidos em 2000 por organizações mundiais, como ONU, Banco Mundial (Bird) e FMI. Em Praga, durante reunião conjunta do Bird e FMI, em setembro de 2000, 20 mil manifestantes conseguiram forçar a antecipação do fim do encontro, que teve como tema principal o combate à pobreza.
|