Não é simples definir com rigor as
Unidades formais da sintaxe (período,
Frase e sintagma), dada a complexidade e a riqueza da estrutura gramatical. Essa afirmação contrasta com a facilidade com que os falantes captam intuitivamente esses conceitos.
Os usuários do idioma entendem rapidamente o que queremos dizer com o termo
Frase, se introduzirmos o conceito através de exemplos, se fizermos aproximações ou se apelarmos à intuição dos falantes. Na verdade, a Gramática Tradicional sempre usou desses expedientes para apresentar o conceito de
Frase. Mas quando buscamos uma definição formal para a
Frase, a situação se complica consideravelmente.
Da mesma forma, os falantes têm uma intuição clara do que seja um
Período, pois conseguem segmentar facilmente os discursos em períodos. Fazem isso quando, no discurso escrito, utilizam maiúsculas e sinais se pontuação para delimitar o início e o fim de períodos. No discurso oral, delimitam os períodos usando pausas e modulações de entoação. No entanto, se quisermos uma definição rigorosa de
Período, precisamos contornar algumas dificuldades.
Quanto aos sintagmas, é difícil dizer em que medida os falantes têm uma intuição forte dessas unidades formais, pois são poucos os contextos em que a consciência deles seja cobrada do usuário, a não ser na esfera dos estudos gramaticais.
Na seqüência, vamos apresentar considerações relevantes para a delimitação das
Unidades formais da sintaxe.
Delimitadores de início e fim
Uma constatação imediata acerca de períodos é que no discurso escrito os períodos são iniciados com
Grafema maiúsculo e terminam com um sinal de pontuação final. Essas constatações, válidas para a maioria dos períodos, nos levam à questão: essas características são relevantes para a definição do
Período ou são conseqüência do fato de o enunciado ser um período? Usamos letra maiúscula no início de um
Período porque o reconhecemos como
Período ou para estabelecê-lo como período? A maiúscula inicial apenas reforça informações contidas em outros elementos de que estamos diante de um período? Trata-se de uma sinalização redundante que se for subtraída não prejudica o entendimento do falante, que poderá facilmente se localizar dentro do contexto e delimitar o
Período, mesmo sem a presença de um sinalizador gráfico de começo?
E quanto aos sinais de pontuação final? Bem, eles são decisivos para definir o tipo de
Frase que compõe o
Período, principalmente, para distinguir entre
Frase interrogativa e não interrogativa. Se comutarmos o
Ponto final pelo
Ponto de interrogação, veremos que nos dois casos continuamos tendo uma
Frase, embora de natureza diversa uma da outra.
As constatações que fizemos sobre o discurso escrito podem ser transpostas para o discurso oral. Quando pronunciados, os períodos seguem padrões definidos de entoação. Será esta uma característica importante para a conceituação de
Período, ou, a entoação é um reforço à informação de que o segmento é um
Período. Vale lembrar que os padrões de entoação servem, também, para distinguir entre tipos de
Frase que compõem o
Período, em especial, para diferenciar as interrogativas, das não interrogativas.
Fizemos esses questionamentos iniciais para abordar o problema presente nos dois enunciados a seguir:
Vim, vi, venci.
Vim. Vi. Venci.
No primeiro enunciado, em que temos apenas um
Ponto final, existe só um
Período. No segundo enunciado, com os segmentos delimitados por três pontos finais, temos três períodos. A partir do exemplo, vemos que, em alguns casos, o uso de delimitadores de início e fim é crucial para estabelecer o segmento como
Período. No exemplo dado, sem os delimitadores não temos como antecipar a proposta do emissor para segmentação do enunciado em períodos. A conclusão é que, em alguns casos, a delimitação dos períodos de um enunciado é estabelecida pela vontade do emissor, em função de graus de
Liberdade que o enunciado oferece. Se o emissor considerar que as três frases do exemplo formam um conjunto concatenado, organiza-as num agrupamento maior, o
Período, e deixa isso claro para o receptor por meio dos sinalizadores de início e fim. Por outro lado, se o emissor entender que as frases do enunciado não formam um grupo concatenado, faz uma distribuição diferente dos delimitadores de início e fim.
Não são todos os enunciados que oferecem mais de uma possibilidade de segmentação. Analise o exemplo a seguir:
ele se esforçou mas não atingiu a nota mínima
Apresentarmos o enunciado sem os delimitadores de início e fim, mas mesmo assim será possível delimitar o
Período e suas frases, pois nesse caso só existe uma possibilidade de segmentação que produz enunciados aceitáveis.
Ele se esforçou, mas não atingiu a nota mínima.
Em resumo: os delimitadores de início e fim cooperam com outros elementos da estrutura sintática para estabelecer as
Unidades formais da sintaxe. Em alguns casos, são redundantes e, se subtraídos, mesmo assim será possível discernir qual é a segmentação correta do enunciado. Em outros casos, o uso dos delimitadores é crucial para determinar a segmentação proposta pelo emissor. Se forem subtraídos, surge uma incerteza que não se dissipada pela análise de outros elementos da estrutura sintática.
Enunciado completo
Uma característica básica das unidades formais sintáticas é que são enunciados completos. Isso quer dizer que as informações nelas contidas formam um todo consistente e que não se identifica a ausência de elementos necessários à compreensão. Quando ouvimos ou lemos uma
Frase bem formada, por exemplo, nosso entendimento não constata ausências que nos causam estranheza ou dificuldades na decodificação. Mas convém lembrar que a completude das unidades formais se dá na camada gramatical de análise e não na camada contextual. São diferentes entre si o enunciado gramaticalmente completo e o contextualmente completo. Por exemplo:
Eu vou.
Eu vou com você ao ...
O primeiro enunciado pode ser considerado gramaticalmente completo, mas talvez seja insuficiente para satisfazer as necessidades de comunicação em contexto específico. O ouvinte pode perguntar: Vai onde? No entanto, se o ouvinte estiver imerso em um contexto em que sabe onde o emissor vai, a comunicação se dá satisfatoriamente.
O segundo enunciado é gramaticalmente incompleto, mas talvez seja suficiente para o receptor captar o sentido da
Mensagem. Gramaticalmente incompleto porque em português é necessário um sintagma
Substantivo após a
Preposição. A ausência desse sintagma gera estranheza ao receptor. Por outro lado, se o receptor souber pelo contexto onde é que o emissor vai, a comunicação acontece sem problemas.
Enunciado auto contido
As partes de um enunciado se interligam por uma rede de relacionamentos sintáticos. Uma das características das unidades formais sintáticas é que os relacionamentos se resolvem dentro dos limites da unidade, ou seja, as unidades são auto contidas do
Ponto de vista sintático e não dependem de elementos externos a elas para serem compreensíveis.
Enunciado sintaticamente bem formado
Dizer que um enunciado é bem formado é se referir a uma série de condições que devem ser satisfeitas para que a boa formação seja confirmada. Sem dúvida, existe uma enormidade de regras gramaticais que devem ser obedecidas para que um enunciado possa ser chamado de bem formado. Mas para nossa delimitação das unidades formais, a condição mais importante é a organização dos elementos sintáticos segundo modelos válidos da gramática do idioma. Em outras palavras: na unidade formal, podemos reconhecer segmentos de nível inferior, mas que pertencem ao nível sintático de análise, organizados segundo um dos modelos válidos da gramática do idioma. Não deve haver falta de elementos, nem excesso, nem conflito, nem problemas na ordem em que eles se distribuem, etc.
Tradicionalmente, sempre se despendeu esforço em determinar quais seriam os
Constituintes sintáticos essenciais da
Frase. O esforço resultou debalde, pois provavelmente, não existem tais constituintes. Existem sim, várias combinações de
Constituintes sintáticos que são reconhecidas como
Frase, no entanto, nessas combinações não conseguimos extrair uma regularidade universal ou componente essencial. Talvez a única característica universal que se pode atribuir às frases seja a de serem constituídas por uma combinação gramatical de
Constituintes sintáticos de nível inferior, entre os quais destacamos:
Sujeito,
Sintagma verbal,
Sintagma adjetivo,
Objeto direto,
Objeto indireto e
Sintagma adverbial.
Enunciado mínimo
Uma das condições para um enunciado ser uma unidade formal sintática é que não seja possível dividi-lo em dois outros segmentos em que os dois por sua vez, também sejam completos, auto-contidos e sintaticamente bem formados.
Interdependência entre
Frase e sintagma
Uma das dificuldades para a definição de
Frase e sintagma é a interdependência dos dois conceitos, o que dificulta a definição de um antes do outro. Só reconhecemos uma
Frase bem formada, ou aceitável, na medida em que identificamos os sintagmas que a compõe. Por outro lado, os sintagmas só são compreensíveis na medida em que são vistos como constituintes da
Frase.
Esse problema é milenar, tanto que na Gramática Tradicional define-se o modelo mais típico de
Frase como o enunciado que apresenta
Sujeito e predicado, ou ao menos predicado.
Elipses
Observe o
Período a seguir:
Tive sorte e você, não.
Nesse exemplo, temos duas elipses, ou seja, a ausência previsível de algum item da
Frase. A primeira elipse é a ausência do pronome
Eu na
Frase tive sorte. A segunda elipse é a ausência de teve sorte na
Frase você, não. O
Período de exemplo pode ser parafraseado da seguinte forma:
Eu tive sorte e você não teve sorte.
A elipse do pronome
Eu é possível porque o
Sujeito da ação está implícito na flexão do verbo. Tive é flexão de primeira pessoa singular do verto ter, o que é suficiente para determinar o
Sujeito da ação como sendo
Eu.
A segunda
Frase do
Período de exemplo, tomada isoladamente, é inaceitável.
Você, não.
No entanto, a elipse é permitida nesse caso porque os itens elididos foram citados na
Frase anterior. Trata-se de um caso particular de elipse, conhecido como zeugma.
A elipse é um recurso vastamente empregado em todas as variantes lingüísticas e se constitui em um desafio para a teoria sintática. A teoria sintática se baseia na análise de frases completas. A elipse perturba a análise sintática porque não há como garantir, senão por especulação, como se deu a elisão de itens do enunciado.
Em nossa análise, vamos nos focar em enunciados completos. Vamos considerar que a elipse é uma operação posterior à estruturação sintática da
Frase. Trataremos a elipse como uma operação além do nível sintático de análise.