Autor: (Moacyr Scliar )
Durante muito tempo, foi um segredo de polichinelo: todo mundo sabia que, em determinadas circunstâncias, os médicos, de comum acordo com familiares, suspendiam os esforços para manter viva uma pessoa sem sinais de atividade cerebral. Desligar o respirador era o gesto típico que encerrava longas jornadas de angústia. Manter a vida em tais circunstâncias constituía-se naquilo que os médicos norte-americanos rotulam como "futility", um termo que, a propósito, não deve ser traduzido pelo ofensivo "futilidade"; "inutilidade" talvez seja mais adequado, mas também não capta o drama envolvido nesta decisão.
Pergunta: o que ocorreu de diferente no caso da infeliz Terri Schiavo? Resposta: neste sombrio caso, não houve consenso. O marido, alegando que falava em nome de Terri, e que ela já não tinha possibilidade de recuperação, queria abreviar sua sobrevida e contava com uma decisão judicial. A ele se opôs a família, com apoio de boa parte da opinião pública. Ora, quando a opinião pública é mobilizada para um debate assim, tudo muda. Já não é mais uma discussão em voz baixa, no recinto de um centro de tratamento intensivo ou de um quarto de hospital. Não, catapultada pela emoção, a polêmica emocionou e galvanizou milhões de pessoas. Suprimida a alimentação e a hidratação, Terri passou a ser olhada como mártir. Defender sua vida transformou-se em causa política e religiosa. Um perturbador conflito, com os "conservadores" de um lado e os "progressistas" de outro. Convenhamos: quando o debate político opunha defensores do
Capitalismo e defensores do socialismo, ao menos se podia contar com algum grau de objetividade.
Há uma segunda pergunta e é, vamos sublinhar bem, apenas uma pergunta, algo para que todos meditemos: será que o tribunal é a melhor instância para resolver um dilema desses? Se a família queria cuidar de Terri Schiavo, por que não poderia fazê-lo? Por causa do marido? Mas não seria o caso de esse homem examinar os seus sentimentos a respeito, ao invés de mover uma ação judicial?
Há uma terceira questão, e esta de natureza mais ampla: podem os sistemas de saúde arcar com o ônus de prestar uma cara assistência a pessoas em estado vegetativo, cada vez mais numerosas? De novo, isto é uma decisão que só pode ser tomada num contexto muito amplo, o contexto da escolha democrática de políticas governamentais. Fora disso, cada caso é um caso. E, em cada caso, quanto mais serena e consensual for a decisão, menos sofrerão as pessoas envolvidas.
Proposta de redação
Escreva um texto dissertativo de 30 linhas, em prosa, sobre a eutanásia, tendo em vista o caso concreto abordado pelo escritor Moacyr Scliar na crônica “A vida no limiar”.