Autor: MOACIR ASSUNÇÃO
Qual a verdadeira face dos estrangeiros que ajudaram a construir a cidade? Para responder a isso, a historiadora Sonia Maria de Freitas pesquisou a trajetória de dez comunidades que vieram para o País a partir do fim do século 19 e depois das duas guerras mundiais. Menos expressivos numericamente que italianos e japoneses, povos mais estudados por historiadores e sociólogos, eles abandonaram seus países, em muitos casos ocupados militarmente, e fugiram da guerra e da fome, instalando-se em São Paulo.
Com suas tradições, hábitos e costumes, colaboraram para tornar a cidade um multifacetado mosaico cultural.
Dados do Memorial do Imigrante, onde trabalha a professora, informam que 70 povos imigraram para o Brasil. Em sua tese de doutorado, defendida recentemente na Universidade de São Paulo (USP), Sonia dissecou a trajetória de armênios, que fugiam do primeiro genocídio do século 20, em 1915, no qual o número de mortos chegou a 1,5 milhão; russos contrários ao comunismo, que tentavam escapar da Revolução de 1917; poloneses, lituanos, húngaros e ucranianos, que fugiam da dominação soviética. Também foram pesquisados chineses; japoneses de Okinawa, que vivem no arquipélago ao sul do país e diferem da população da ilha principal; italianos do Monte San Giácomo e Sanza, também diferentes dos demais patrícios, e espanhóis.
O trabalho inédito, intitulado Falam os Imigrantes... Memória e Diversidade Cultural em São Paulo, permitiu que essas comunidades ganhassem voz e rosto.
A face dos imigrantes, então, se revela ou loira de olhos azuis ou com traços orientais. A contribuição desses povos à cultura nacional variou de aspectos arquitetônicos, artísticos e culturais em igrejas de todas as crenças à culinária.
No Brasil, os estrangeiros descobriram o valor da tolerância, escassa na Europa e na Ásia da época, em que o fantasma da guerra rondava os países, num turbilhão de violência e fome. Depois de 1945, a maior parte deles sobrevivia, a duras penas, nos campos de displaced person (pessoa deslocada). Rivais na Europa, lituanos e ucranianos - oprimidos pelos russos - passaram a conviver pacificamente no mesmo bairro, a Vila Zelina, zona leste. No Tremembé, zona norte, poloneses e alemães, também inimigos, se tornaram vizinhos e amigos. Durante a 2.ª Guerra, a Alemanha de Hitler invadira e ocupara a Polônia.
"O que nos separava na Europa nos unia no Brasil", afirma o arquiteto polonês e professor da Universidade de São Paulo (USP) Witold Snitrowic. Em outro país, diz ele, um encontro entre um compatriota de Gdansk, cidade que viu nascer o sindicato Solidariedade de Lech Walesa, e um alemão de Danzig, que vinham a ser o mesmo local, anteriormente ocupado pelos germânicos, acabaria em briga. "Aqui, eles se cumprimentariam como conterrâneos."
Adaptação - A vida dos imigrantes teve lances curiosos de adaptação. O arenque, peixe típico de regiões frias, foi substituído pela sardinha. Nativo de regiões tropicais e subtropicais, o palmito virou o sucessor natural do cogumelo no pastel pierogi, de origem polonesa. O mesmo ocorreu, de acordo com o jornalista Saul Galvão, crítico gastronômico do Jornal da Tarde, com o quibe. Feito de carne de carneiro nos países árabes, passou a ser produzido com carne de vaca no Brasil.
Para aprender a nova língua, o filho de okinawanos Kioshi Teruya, de 70 anos, escrevia palavras em português no dorso da mão. Enquanto trabalhava no arado em Promissão, interior de São Paulo, gravava as palavras, retiradas de jornais que comprava aos montes. "Não me conformava quando não aprendia pelo menos cinco palavras novas por dia", diz.
A lituana Elena Vidmontas, de 89 anos, inventou outro método peculiar: lia dois livros, emprestados por vizinhos italianos, ao mesmo tempo. Com isso, a imigrante, que sabia apenas rudimentos da língua falada no Brasil, foi 'alfabetizada' por Machado de Assis, Monteiro Lobato e Olavo Bilac.
"Desenvolvi um vocabulário muito culto para uma imigrante."
O polonês Szot Kazimierz, cujo nome foi mudado para Casimiro, viveu, pouco antes de vir para o Brasil, uma situação curiosa: dias depois do fim da 2.ª Guerra, reencontrou em uma estação de trem na Alemanha um ex-soldado que o havia agredido pelo simples fato de ele não entender a ordem de tirar as mãos do bolso, forma de se proteger do frio.
Assustado, o oficial se ajoelhou, pedindo perdão. "Falei que não era tão animal como eles haviam sido conosco durante o conflito e ele podia seguir tranqüilo", conta, ainda com forte sotaque.
Arquitetura - As comunidades também deixaram legados na arquitetura, embora só e a
Liberdade conserve as características de bairro de imigrantes, com as luminárias típicas, as torii, construções em forma de pagode e praças com tanques de carpas. Na Vila Zelina, a Praça República Lituana conserva a Igreja São José, com vitrais do santo nacional, São Casimiro, onde há missas na língua natal aos domingos e uma réplica do monumento à independência da Lituânia, que ficou 51 anos sob domínio soviético. Em frente do templo de arquitetura lituana, projetado e construído pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, uma cruz com símbolos pagãos como sóis e flores relembra as religiões antigas do povo, antes da introdução do cristianismo.
No caso da Vila Zelina, a aglomeração de lituanos, depois seguidos por russos e ucranianos, não foi acidental. O dono dos terrenos, Cláudio Monteiro Soares, doou à comunidade a área em que foi erguida a igreja, em 1935. Católicos, os lituanos, que tinham começado a chegar nove anos antes, compraram os lotes para ficar próximos de seu templo. Hoje, de acordo com o padre Petras Ruksys, o Pedrinho, a maioria da comunidade é composta por brasileiros. "Anteriormente, faziam-se três missas em lituano e uma em português. Agora é o contrário."
Escondida em meio aos prédios da
Liberdade, a Catedral Ortodoxa de São Nicolau, nome do mais importante ícone (equivalente a santo) russo, é um tesouro da comunidade. Com cúpula dourada, paredes brancas e estilo arquitetônico dos Montes Urais, o templo dirigido pelo padre Konstatin Bussyguin tem ícones medievais, trazidos pelos imigrantes. Vítimas de perseguição religiosa por parte do regime soviético, os refugiados da Rússia encontraram no Brasil um porto seguro.
O curioso é que o refúgio russo, onde também há missas na língua natal aos domingos, fica na Rua Tamandaré, em pleno coração da
Liberdade. Em outro país, talvez isso fosse encarado como provocação. Os russos, rivais históricos da China, potência socialista contrária a Moscou, combateram os japoneses na guerra da Coréia, em 1904. No Brasil, porém, as diferenças são amainadas.
Ninguém ouse, entretanto, ter idéias xenófobas a respeito dos estrangeiros radicados no País. Embora mantenham sua língua, tradições e cultura, eles se consideram tão brasileiros quanto os nativos. "O amor pelo Brasil não abafa o amor pela terra natal. Os dois coexistem tranqüilamente", defende a húngara Eva Tirczka Piller, de 68 anos. O apreço pelo País que a acolheu é tão forte que a lituana Elena recorda como o momento de maior emoção de sua vida o dia em que se naturalizou brasileira. "Quando pisei na Avenida Paulista, senti que aquele solo também era meu. Nunca me senti tão feliz."